Não há nada tão contagioso como as emoções.
Gostemos ou não da ideia, o facto é que somo todos influenciáveis. Em maior ou menor grau, acabamos por alinhar que no que vai emergindo como dominante: modas sucessivas que vão ditando a forma como nos vestimos, comportamos, agimos e, também, os valores e crenças que vamos tendo.
Inadvertidamente, sem darmos por isso, vamos fazendo escorregar os nossos pontos de vista e os nossos estilos de vida, a ideia e formas de ser e estar que um dia estranhámos e, depois, deixámos que se entranhassem.
Porque estamos sempre em contacto com outros, vamo-nos deixando afetar por temas e problemas que preocupam e interessam os que nos rodeiam. Um dia acordamos com disposições, angústias e inseguranças que à partida, nem eram as nossas. De repente, ‘desrealizamos’ e damos por nós a sentir como se, em vez de sermos nós, na nossa específica circunstância, fôssemos um estuário onde desaguam as emoções confusas e variadas do nosso mundo. De repente, deixamos que a nossa individualidade se dilua em emoções oceânicas que alguém desconhecido talvez tenha experimentado, um outro qualquer juntou mais uns pozinhos e outros ainda exprimiram e divulgaram. Perdemo-nos depois num turbilhão de emoções assustadoras que não reconhecemos, que não percebemos, mas sentimos na mesma.
Se faz parte da condição humana o sermos capazes de desenvolver laços empáticos com outros e, por isso mesmo, nos conseguirmos organizar em grupos humanos que comungam e partilham qualquer coisa essencial, o contágio emocional fica longe disto e perverte, no limite, qualquer princípio, não só de racionalidade como de vida em sociedade.
Nos difíceis tempos que correm, é fácil deixarmo-nos levar por zangas e revoltas. Quase toda a gente tem uma ou várias boas razões para se sentir injustiçado, para desacreditar de um contracto social assumidos como bom, para se sentir temerosos de um qualquer devir.
É aqui que se joga o peso da própria identidade. É aqui que temos de decidir se queremos influenciar ou ser influenciados. Se queremos ir com os outros ou trazê-los connosco. Se somos capazes de fazer parte das soluções ou se só queremos enunciar problemas.
(Isabel Leal, Professora de Psicologia Psicoterapeuta)